segunda-feira, maio 25, 2009

RONCADOR-XINGU

 A HISTÓRIA REGISTRADA EM FOTOS

 Na direção do Brasil Central, Uberlândia era naquela época o ponto civilizatório mais avançado. Dali partiam as estradas de terra ziguezagueando cerrado adentro. Algumas cidades prósperas, já em Goiás, como Rio Verde, Jataí, Rio Bonito – hoje Caiapônia -, eram ligadas por velhas “jardineiras”. Foi por esse caminho que seguiram todos os que saíram do Sul para participar da avançada rumo ao Oeste.

 Um visitante vindo da cidade grande, em pé na barranca alta do rio das Mortes, olhando a sua frente, além do rio, a vasta região de cerrado grosso nascido do solo seco do chapadão e divisando no horizonte longínquo a fímbria da serra do Roncador, fala a um sertanejo que está ao seu lado: - Bonito cenário, mas a terra parece um pouco seca, não é? - É, sim, senhor – responde o sertanejo. - Você que é homem da região, para o que serve melhor esta terra, agricultura ou gado? - Óia, seo moço, pra fala a verdade ela só serve pra faze longe. Isso aconteceu nos anos quarenta. O visitante sumiu, nunca mais voltou. O sertanejo morreu. E a terra do “fazer longe” hoje conta com inúmeras cidades e vilas, centenas de fazendas e, substituindo o picadão do começo, centenas de quilômetros de asfalto, como um risco negro no solo seco do chapadão muito além da serra distante. 

O acampamento da barranca é hoje a cidade de Xavantina.A nascente Aragarças, antiga Barra Goiana, estava surgindo nas terras do Pio de Barros. O ministro João Alberto, para evitar futuros aborrecimentos, resolveu comprar a gleba. O negócio não foi fácil. O velho Pio de Barros, que vivia dos seus negócios de pequeno criador, passou a olhar com desconfiança aquela gente nova interessada nas suas terras. Chamado para uma conversa, Mané Pio compareceu arredio, ouvindo muito, mas falando pouco. - Seu Maná Pio. Estamos querendo comprar as suas terras para construir uma cidade. O que o senhor acha disso? – perguntou o ministro. - É... depende – respondeu o velho. - Temos duas propostas – ponderou o ministro. - Duas? – indagou o velho. - É preciso que o senhor repare, estude bem e escolha aquela que o senhor acha melhor – voltou o ministro. - Entonce pode falar. - Na primeira nós oferecemos cinqüenta contos de entrada e cinco contos por mês enquanto o senhor for vivo. - Essa num tá ruim. E a outra? – indagou o velho. - A segunda nós damos oitenta numa pancada só, ficando assim tudo liquidado – concluiu o ministro. Mané Pio coçou a cabeça, fechou os olhos e olhou para o ministro. - Olha, siô... a premera é boa pra dana, mas o mio mesmo é dá logo os oitenta... sei lá! O negócio foi fechado. 


Restava agora conhecer os limites da gleba. Não havia um só documento que especificasse. Croquis, então, nem se fala. Houve uma descrição oral, rápida e sem rodeios. - Vosmicê desce o Araguaia até a boca do Rola (córrego). Daí sobe por ele arriba até as divisa do compadre Mané Bunda. Di lá vira às direita até a Serrinha que di lá inté dá pra enxerga. Chegano lá torna a virá as dereita e ruma até o Araguaia. Divisa cantada, negócio fechado. O dinheiro não demorou. Melhor mesmo teria sido se o velho tivesse aceitado a primeira proposta, pois viveu bem um punhado de anos depois do acerto.A Barra Goiana, hoje Aragarças, era uma corruptela garimpeira no começo. E nela vivia os “capangueiros” – os compradores de diamante ou donos de garimpo. Pedro Martins era um dos mais fortes compradores e, além disso, tinha uma casa comercial. Sua moradia, feita de taipa e adobe, era uma das melhores da vila. Bem barreada e pintada, chamava a atenção. 


O ministro João Alberto toda vez que ia à vila visitava Pedro Martins. Certa feita, o ministro e uma figura ilustre da embaixada da Espanha foram visitar a vila. Como não podia deixar de ser, a casa do capangueiro foi a primeira a ser mostrada ao visitante. Pedro Martins os recebeu na porta, e caminharam para a sala espaçosa. Lá dentro a visita, depois de ouvir do ministro como eram feitas as casas assim, uma construção puramente cabocla, virou-se para o dono da casa e indagou, num espanhol aportuguesado: - Bueno, bueno, esta casa é suya? Pedro Martins, ofendido, retrucou à altura: - Suja, não, sinhor. Tá muito da limpa, e o senhor me arrespeite! O ministro, que presenciou o diálogo, riu, apaziguador, e explicou ao ofendido dono da casa que ele ouvira mal, não era suja de sujeira o que disse o visitante. - Senhor Pedro, ele só queria saber se a casa é sua.


É comum ouvir-se nas conversas das gentes do sertão a pronuncia de certas palavra de maneira muito complicada. Numa conversa entre duas vizinhas, uma delas contava à companheira que havia espetado acidentalmente um prego enferrujado na mão e que o homem da farmácia consultado recomendou uma “valcina para tetrano”, o que levou a outra a corrigir: - Num é tetrano que a gente fala, é teto (tétano).Salomão tinha uma dor de dente crônica que não o deixava longe do ácido fênico. Tanto ia à farmácia da Base que o chefe médico Dr. Vahia resolveu incorporá-lo definitivamente ao ambulatório como enfermeiro. Ambulatório era o nome, em verdade era uma salinha com janela entelada, uma mesinha que suportava um estojo de metal com alguns instrumentos ligados à medicina: bisturi, pinça, espátula, tesoura, um rolo de gaze e outro esparadrapo. Embaixo da janela uma modestíssima mesa de curativo. Um fogareiro ”primus” fervia o “instrumental” cirúrgico. Coroando isso tudo, sem contar com o enfermeiro, que não distinguia uma cafiaspirina dum supositório, dos doutores mestres ali faziam milagres: Dr. Estilac e Dr. Vahia de Abreu. 


Numa tarde quente o Dr. Estilac lia algo filosófico, enquanto seu colega jogava paciência com um surrado baralho, quando entrou esbaforido o enfermeiro Salomão. - Seu douto, a tripa do roxo espocô. - Que tripa? Que roxo? Espocou o quê? Fale devagar e explique direito – Advertiu o Dr. Vahia. - Chegou na farmácia uma pai-d’égua (grande) de roxo (preto) com o bucho estufado. O tar tá numa gemeção... dois cumpanheiro truxeram êli. Os dois médicos mais que depressa, saíram para a enfermaria. Lá esticado no chão, gemendo e se contorcendo, um espadaúdo negrão. Os doutores puxaram a mesinha de curativo para o meio da sala e pediram aos dois acompanhantes que puseram o doente em cima da mesa e que não largassem dele um instante. Em rápidas apalpadelas o mal foi diagnosticado: hérnia “estrangulada”, ou “espocada” no diagnóstico de Salomão. - Vamos operá-lo – resmungou o Dr. Vahia. - É o jeito – concordou o Dr. Estilac. - O pior é que não há nem sombra de anestésico – acrescentou o primeiro. - Pra dor nóis tem cafiaspirina – esclareceu Salomão -, aquele do guaiacol! - Problema sério – concluiu o Dr. Estilac . - Anestesia “contensiva”: gente para segurar o moço. Tudo depressa, porque o motor da luz está ruim e já, já escurece. Zétola, radioperador, saiu e trouxe cinco “anestésicos” fortes, um em cada perna, um na cabeça e um em cada braço. Tudo pronto. O Dr. Vahia abriu a barriga do “roxo”. Ele embocava o corpo e desmaiava. O motor voltou a pifar. - Luz – gritou o Dr. Vahia. Salomão saiu correndo e trouxe um lampião “sonâmbulo” – o nome por si já diz, era o pior possível. - Luz – voltou a gritar o Dr. Vahia. O vivo Salomão saiu e voltou com duas velas. O Dr. Vahia, suando em bica, instruía: - Pra cá, seu bunda, pra lá, seu bunda! O “roxo” voltava a si e era uma dureza mantê-lo na mesinha. Na qual não cabia nem uma perna. Terminada a operação, faltava agora, fechar a barriga do “roxo”. O calor insuportável sugeriu que se abrisse um pouco a porta. Dito e feito, ordem é ordem. Aberta a porta, entrou, atraída pela luz, uma enorme mariposa! A dita deu um mergulho nas tripas do crioulo. O Dr. Vahia xingou a mãe da mariposa e lavou como pôde as tripas do “roxo”. A costura foi rápida. Não foi bem uma costura, mais um alinhavado! O Dr. Vahia esquecera que o enfermeiro era o Salomão do guaiacol e recomendou: - Amanhã cedo você faz uma lavagem com um irrigador usando este pozinho. Tudo terminou. O “roxo” anestesiado dormiu. De manhã Salomão pegou um regador, encheu d’água, pôs o pozinho e deu uma lavagem de corpo inteiro no crioulo. Ele variando saiu, caiu e arrebentou os pontos. O Dr. Vahia, xingando toda a geração de Salomão, suturou outra vez. O “roxo” resistiu a tudo. Nesta altura do tempo, quarenta anos passados (o artigo foi escrito nos anos 90), deve ser um “roxo” velho tomando suas cachacinhas nos botecos de beira-rio.O Dr. Vahia tinha um cliente do outro lado do Araguaia. O filho da doente tinha uma canoinha que transportava gente de um lado para o outro. Toda tarde o Dr. Vahia pachorrentamente ia até a beira do rio, tomava a embarcação do mocinho, dava uma injeção na velha e voltava. Fez isso vinte dias. Até que no último avisou o filho da doente: - Sua mãe já está boa, não preciso mais ir lá. Você não tem nada para me pagar, não cobro nada. - Sim, senhor – respondeu o mocinho. – O senhor trevessou o rio vinte veis, a dez tostões, são vinte mil réis. - E você tem coragem de me cobrar, seu bunda? - Uai, nóis veve disso... O Dr. Vahia enfiou sua mão no bolso, tirou os “vinte”, deu pro mocinho e saiu resmungando.